segunda-feira, 13 de junho de 2016

Essa sou eu

Particularmente para mim esse trabalho foi um grande desafio, pois de todas os grupos sociais que eu possa ter que trabalhar durante ou após a minha formação, pessoas em situação de rua são os que mais tenho pesares. Creio que a grande parcela se deve à vários estigmas repassados pelos meus grupos de referência, onde estas pessoas muitas vezes são vistas de forma equivocadas. Tendo que sair da minha zona de conforto em diversas ocasiões para conseguir completar a tarefa de finalizar o trabalho, me vi a cada saída a campo eu sendo colocada a prova e voltando sempre com novos questionamentos e reflexões sobre o que eu acreditava ser certas verdades e o que era real perante mim. 
Enxergar a todos como eles são e como eu sou (iguais em contextos diferentes), descer do meu pedestal e me colocar a pé de igualdade com eles, conversar no mesmo nível olhando nos olhos, sendo sincera com eles para que eles fossem sinceros comigo, criando vínculo a cada frase, ver eles não me olhando como uma burguesa boba, mas como aquela que sentou ao seu lado para te ouvi, sem na verdade ter muito a dizer, estar disposta a aprender o que eles quisessem me ensinar, esse foi o maior ganho com esse trabalho. Sei que não desconstruí nem metade do que tenho aqui dentro de milhares de preconceitos, mas acredito que foi um passo dado na direção que eu como futura profissional da área da saúde preciso dar. 
Estou extremamente satisfeita, talvez não com o resultado da minha pesquisa, pois aconteceram muitas coisas no decorrer dela, fui frustrada várias vezes em vários momentos, mas não deixei de acreditar que seria possível fazer acontecer, mesmo que não do jeito que eu queria que fosse, mas do jeito que os "outros" me levaram a fazer acontecer esse trabalho.
Artesanatos realizados em palha feitos pelos indivíduos abordados.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Refletindo...

Analisando tudo o que consegui coletar, me deparei com duas realidades próximas porém distintas. Apesar de serem todos pessoas em situação de rua, em vulnerabilidade, com histórias pregressas complicadas, e em uso de substâncias psicotrópicas, suas estruturas sociais e funcionais estão comprometidas de formas diferentes. Partindo do pressuposto de que somos reflexo do meio, onde nossa liberdade é limitada, influenciando na auto-eficácia pois agem diretamente nos esforços empregados para as atividades. Os fatores materiais também atuam na capacidade de alcançar os objetivos, mostrando assim que, a nossa liberdade de escolha é regida pelo contexto ao qual estamos inseridos, é determinada não pelo que fazemos, mas sim pelo que somos perante os olhos dos outros. 
Os dois casos são estereotipados quando vistos da ótica do senso comum do grupo social assalariado, pertencente à um endereço fixo. E o senhor Carlos (primeiro caso), sofre o mesmo processo por parte do grupo de pessoas em situação de rua que se encontram funcionais. No discurso do grupo que pernoita no HRT, verifica-se que se algum deles não seguir as regras que são definidas e aceitas como senso comum por aquele grupo é posto a se retirar do local a força, mesmo sendo um lugar de natureza pública. 
Nos julgamos de acordo com a expectativa que criamos sobre uma atividade, e a nossa autoestima assim é estabelecida. Sendo que quando exigimos algo além do que momentaneamente conseguimos dar, há um movimento crescente de frustração, refletindo diretamente naquilo que passamos a acreditar sermos capazes de realizar. Nesse contexto tentar estruturar o seu "Eu" com os pilares construídos pelo "Mim", nos fará irmos além da frustração e seguir com os planos conseguindo ou não o que é desejado e aguentando as consequências das ações. Nos exemplos citados acima, podemos ver que o que o psicólogo Mead chama de "Outros" possui uma força absurda de direcionar os nossos passos e contra essa avalanche de persuasão social é complicado, conflituoso e geralmente resulta em segregação e sofrimento.
Todas essas relações são flutuantes apesar de terem elos fortes. Caso acham outros grupos de identificação ou de poder de coesão mais influenciável a determinado indivíduo este transloca dentro e fora desses grupos sociais.
Tudo isso influencia no grau e formas de dependência em relação aos grupos, pois ao mesmo tempo que você pode se "libertar" de um grupo social que você fazia parte, este vai te deixar carências que em algum momento vão te fazer cobrar de outros grupos que podem te suprir o mesmo ou com aspecto parecido. Ser social é estar livre para pensar que não está preso, mas definitivamente é está preso socialmente para achar que está livre.
Por fim, seu estado de funcionalidade está comprometido em níveis diversos a depender de como você encara o seu estado, e tem fé em suas capacidades, e tudo isso depende de toda a dinâmica do "eu" com os "outros".

Referências bibliográficas:
BAUMAN, Z.; MAY, T. Aprendendo a pensar com a sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2010. 
AZZI, R.G.; POLYDORO, S.A.J. Auto-eficácia em diferentes contextos. Campinas: Editora Alínea. 2006.