Depois de toda a confusão do último encontro com o senhor Carlos, ele não foi mais visto mesmo depois de várias buscativas aos seus locais habituais. Com o pesar de não conseguir fechar um bom trabalho, me dirigi em busca de outras pessoas em situação de rua. Após abordar algumas pessoas próximas à comércios e estacionamentos e não conseguir alguém que assumisse dormir na rua, me dirigi ao Hospital Regional de Taguatinga, onde era de meu conhecimento que haviam muitos indivíduos que pernoitavam naquelas redondezas. Como fui ainda no final da tarde, tinham apenas três pessoas por lá, porém com a noite avançando muitos outros foram surgindo.
Após abordar, me identificar e explicar a proposta do que estava fazendo, eles permitiram que eu me sentasse com eles e filmasse alguns pontos da conversa, em outros eles pediram para desligar a câmera. Eles se identificaram como Carlos, natural de Patos de Minas, e Maxwell, natural de Belo Horizonte, e o terceiro não quis conversar e após alguns minutos se retirou do local. Depois se aproximaram outros como o Lázaro, mineiro, o "Sorriso" goiano, o "Moreno" e outros que não se apresentaram.
A conversa se desenrolou de variadas formas, em alguns momentos eles faziam relatos de suas vidas pregressas, outras eram conversas paralelas entre eles, e às vezes a conversa vinha em cima do que eu os questionava.
A vida pessoal de todos os que consegui acesso mesmo fora das gravações (por não concordarem), estavam atreladas a desavenças familiares com histórico de abuso e o uso de substâncias psicotrópicas. Alguns relatam estar em situação de rua por opção diante das condições impostas por familiares quando morava com estes. A grande maioria dos abordados relataram ter algum tipo de atividade remunerada, que na situação o dinheiro serviria para se alimentarem, e adquirirem álcool/drogas. Todos os participantes do trabalho foram do sexo masculino, e a única mulher que por hora se aproximou não quis conversar.
Me explicaram que conseguem cuidar da higiene pessoal, e de seus pertences, se alimentar e ganhar roupas e cobertas no Centro POP (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua). Lá eles tomam banho, lavam suas roupas e guardam alguns pertences de segunda a sexta-feira. Relataram ainda que, o Centro POP auxiliam eles com outra problemática constante com essa população, a perda dos documentos de identificação. Elogiaram o serviço da instituição, reforçando que realmente funciona.
Quanto ao movimento migratório para aquela localidade, esclareceram ser devido à estarem em ambiente onde se encontravam outros conhecidos, e acabavam criando um tipo de comunidade, onde se identificavam, cuidavam um do outro, recebiam ali donativos de alimentos e cobertas.
Quando questionados sobre o uso de substância psicoativas e o seus cotidianos, quase todos relataram fazer uso de álcool diariamente, e de outras substâncias de forma esporádicas. O álcool é tido por eles como um instrumentos auxiliador e algumas vezes impulsionador das atividades do cotidiano. Nesses casos mostraram que mesmo o uso do álcool ser abusivo não é problemático, não interferindo na funcionalidade dos sujeitos nem na sua auto-eficácia. Entende-se auto-eficácia como a crença nas possibilidades pessoais de ser produtor da sua trajetória, sob diversos níveis de demanda e diferentes circunstâncias, segundo Bandura (1997).
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