sexta-feira, 27 de maio de 2016

Onde tudo mudou.

Depois de toda a confusão do último encontro com o senhor Carlos, ele não foi mais visto mesmo depois de várias buscativas aos seus locais habituais. Com o pesar de não conseguir fechar um bom trabalho, me dirigi em busca de outras pessoas em situação de rua. Após abordar algumas pessoas próximas à comércios e estacionamentos e não conseguir alguém que assumisse dormir na rua, me dirigi ao Hospital Regional de Taguatinga, onde era de meu conhecimento que haviam muitos indivíduos que pernoitavam naquelas redondezas. Como fui ainda no final da tarde, tinham apenas três pessoas por lá, porém com a noite avançando muitos outros foram surgindo.
Após abordar, me identificar e explicar a proposta do que estava fazendo, eles permitiram que eu me sentasse com eles e filmasse alguns pontos da conversa, em outros eles pediram para desligar a câmera. Eles se identificaram como Carlos, natural de Patos de Minas, e Maxwell, natural de Belo Horizonte, e o terceiro não quis conversar e após alguns minutos se retirou do local. Depois se aproximaram outros como o Lázaro, mineiro, o "Sorriso" goiano, o "Moreno" e outros que não se apresentaram. 
A conversa se desenrolou de variadas formas, em alguns momentos eles faziam relatos de suas vidas pregressas, outras eram conversas paralelas entre eles, e às vezes a conversa vinha em cima do que eu os questionava. 
A vida pessoal de todos os que consegui acesso mesmo fora das gravações (por não concordarem), estavam atreladas a desavenças familiares com histórico de abuso e o uso de substâncias psicotrópicas. Alguns relatam estar em situação de rua por opção diante das condições impostas por familiares quando morava com estes. A grande maioria dos abordados relataram ter algum tipo de atividade remunerada, que na situação o dinheiro serviria para se alimentarem, e adquirirem álcool/drogas. Todos os participantes do trabalho foram do sexo masculino, e a única mulher que por hora se aproximou não quis conversar. 
Me explicaram que conseguem cuidar da higiene pessoal, e de seus pertences, se alimentar e ganhar roupas e cobertas no Centro POP (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua). Lá eles tomam banho, lavam suas roupas e guardam alguns pertences de segunda a sexta-feira. Relataram ainda que, o Centro POP auxiliam eles com outra problemática constante com essa população, a perda dos documentos de identificação. Elogiaram o serviço da instituição, reforçando que realmente funciona.
Quanto ao movimento migratório para aquela localidade, esclareceram ser devido à estarem em ambiente onde se encontravam outros conhecidos, e acabavam criando um tipo de comunidade, onde se identificavam, cuidavam um do outro, recebiam ali donativos de alimentos e cobertas.
Quando questionados sobre o uso de substância psicoativas e o seus cotidianos, quase todos relataram fazer uso de álcool diariamente, e de outras substâncias de forma esporádicas. O álcool é tido por eles como um instrumentos auxiliador e algumas vezes impulsionador das atividades do cotidiano. Nesses casos mostraram que mesmo o uso do álcool ser abusivo não é problemático, não interferindo na funcionalidade dos sujeitos nem na sua auto-eficácia. Entende-se auto-eficácia como a crença nas possibilidades pessoais de ser produtor da sua trajetória, sob diversos níveis de demanda e diferentes circunstâncias, segundo Bandura (1997).


segunda-feira, 16 de maio de 2016

Após 12 dias...

Passados exatos 11 dias consecutivos e nada do senhor aparecer. Com meu constante questionamento por ele aos comerciantes locais, acabei por receber a informação de que tal pessoa atendia pelo nome de Carlos, e que andava sempre por aquelas redondezas havia muitos anos, e era normal ele sumir da localidade de vez em quando.
No décimo segundo dia (hoje), ao me dirigir ao comércio, me deparei com o Carlos estirado ao chão, desacordado, com algumas pessoas em volta. Me aproximei e perguntei o que estava havendo, neste instante ele tentava se levantar para falar comigo, pediu que me aproximasse e quando o fiz, ele começou a relatar a história do que tinha lhe ocorrido.
Expôs que estava deitado na calçada próximo ao estacionamento, e que um carro havia passado por cima do seu braço esquerdo, e estava com muita dor. As pessoas ao redor falaram que já haviam chamado os bombeiros. Apenas continuei a conversar com o senhor para que ele se acalmasse, pois gritava de dor, e sempre que tentava se levantar acabava por cair e batendo a cabeça no chão. Pedi para que ele permanecesse deitado, que a ajuda estava a caminho, e nesse momento ele me pediu para não deixá-lo sozinho.
Enquanto esperávamos pelo socorro, um vigia de carros que também vive em situação de rua nos  rechaçou por estarmos dando atenção a uma pessoa que não merecia, pois segundo suas palavras o senhor Carlos estava apenas fingindo tudo. 
Quando os bombeiros chegaram uma parte se mostrou extremamente frustada em atender aquela ocorrência, e a outra correu para prestar assistência conforme o protocolo. Um dos bombeiros alertou que o Carlos é "freguês", e que não havia muito a fazer por ele, que ele e sua dor no braço eram velhos conhecidos dos socorristas e até mesmo no hospital, e que não adiantava levar ele, pois somente iam ter mais trabalho à toa.
Então resolvi questioná-los sobre o seu histórico com eles, e me foi dito que ele tem esta dor no braço de muitos anos atrás, e que realmente o braço dele é todo fraturado, porém com o uso problemático de álcool, ele deve sofrer constantes lesões por quedas entre outros motivos, e acaba sendo recorrente o sofrimento gerado pelo membro. Acrescentaram ainda que, "poderiam estar atendendo chamado realmente importantes ao invés de estar perdendo tempo ali". 
Este último trecho da conversa me trouxe algumas reflexões sobre os pontos de vista de uma mesma situação. Para os bombeiros, estavam sendo mal utilizados eles e seus recursos em uma ocorrência que era recorrente, inútil (porque nunca iria ser solucionada, segundo eles), com uma pessoa que aparentemente parecia ter menor valor (pelo menos foi o que ficou parecendo), enquanto poderiam estar sendo heróis, mostrando tudo que aprenderam (ou não) em uma ocorrência de atropelamento como foi dito a eles no chamado (isto foi dito pela socorrista). Vale ressaltar que para vários dos pedestres que passaram no lugar deixaram claro que concordavam com os bombeiros, e que o Carlos não merecia aquele atendimento, pelo contrário, estava atrapalhando quem de fato poderia estar precisando.
Já o senhor enfermo, pude perceber que o fato de ele ter alguém que o ajudasse com a sua dor, de qualquer forma que fosse, já seria alguma forma de tratamento. A atenção, qualificada ou não, ao seu sofrimento lhe traz sentimento de pertencimento à um grupo social que goza de seus direitos.
Em reflexão a esta situação, concluo que me pareceu senso comum que indivíduos em vulnerabilidade, em uso problemático de substância psicotrópicas, em situação de rua, deveriam ser abstraídos de seus direitos como cidadãos, incluindo ao que se refere a saúde. Entender que a atual situação de cada um e o seu poder de escolha está atrelado a fatores diversos que influenciam os grupos sociais a que estão inseridos, é de grande importância para esclarecer os caminhos que o levaram até ali e os próximos caminhos que serão trilhados.
O "nós" e o "eles" dentro do contexto de vida deste senhor, apresentaram-se julgadores de seus direitos e carrascos, sentenciando-o cada vez mais a sua marginalização.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Como tudo começou

Em reunião com o professor, ficou decidido a princípio que seria interessante realizar um trabalho de estudo de caso com um senhor que eu havia conhecido e estava em situação de rua. 
A decisão por ser feito o trabalho com esse senhor se deveu ao fato de sempre encontrá-lo no mesmo ambiente, e aparentemente se mostrar funcional mesmo estando em estado de embriaguez. Porém, ao realizar a buscativa aos locais que ele sempre era visto, não o encontrei, e ninguém sabia dele, pois sempre ficava só apesar do bom relacionamento com os comerciantes locais, afinal ele sempre retorna!

Rua das Farmácias - Taguatinga Norte (DF)