Passados exatos 11 dias consecutivos e nada do senhor aparecer. Com meu constante questionamento por ele aos comerciantes locais, acabei por receber a informação de que tal pessoa atendia pelo nome de Carlos, e que andava sempre por aquelas redondezas havia muitos anos, e era normal ele sumir da localidade de vez em quando.
No décimo segundo dia (hoje), ao me dirigir ao comércio, me deparei com o Carlos estirado ao chão, desacordado, com algumas pessoas em volta. Me aproximei e perguntei o que estava havendo, neste instante ele tentava se levantar para falar comigo, pediu que me aproximasse e quando o fiz, ele começou a relatar a história do que tinha lhe ocorrido.
Expôs que estava deitado na calçada próximo ao estacionamento, e que um carro havia passado por cima do seu braço esquerdo, e estava com muita dor. As pessoas ao redor falaram que já haviam chamado os bombeiros. Apenas continuei a conversar com o senhor para que ele se acalmasse, pois gritava de dor, e sempre que tentava se levantar acabava por cair e batendo a cabeça no chão. Pedi para que ele permanecesse deitado, que a ajuda estava a caminho, e nesse momento ele me pediu para não deixá-lo sozinho.
Enquanto esperávamos pelo socorro, um vigia de carros que também vive em situação de rua nos rechaçou por estarmos dando atenção a uma pessoa que não merecia, pois segundo suas palavras o senhor Carlos estava apenas fingindo tudo.
Quando os bombeiros chegaram uma parte se mostrou extremamente frustada em atender aquela ocorrência, e a outra correu para prestar assistência conforme o protocolo. Um dos bombeiros alertou que o Carlos é "freguês", e que não havia muito a fazer por ele, que ele e sua dor no braço eram velhos conhecidos dos socorristas e até mesmo no hospital, e que não adiantava levar ele, pois somente iam ter mais trabalho à toa.
Então resolvi questioná-los sobre o seu histórico com eles, e me foi dito que ele tem esta dor no braço de muitos anos atrás, e que realmente o braço dele é todo fraturado, porém com o uso problemático de álcool, ele deve sofrer constantes lesões por quedas entre outros motivos, e acaba sendo recorrente o sofrimento gerado pelo membro. Acrescentaram ainda que, "poderiam estar atendendo chamado realmente importantes ao invés de estar perdendo tempo ali".
Este último trecho da conversa me trouxe algumas reflexões sobre os pontos de vista de uma mesma situação. Para os bombeiros, estavam sendo mal utilizados eles e seus recursos em uma ocorrência que era recorrente, inútil (porque nunca iria ser solucionada, segundo eles), com uma pessoa que aparentemente parecia ter menor valor (pelo menos foi o que ficou parecendo), enquanto poderiam estar sendo heróis, mostrando tudo que aprenderam (ou não) em uma ocorrência de atropelamento como foi dito a eles no chamado (isto foi dito pela socorrista). Vale ressaltar que para vários dos pedestres que passaram no lugar deixaram claro que concordavam com os bombeiros, e que o Carlos não merecia aquele atendimento, pelo contrário, estava atrapalhando quem de fato poderia estar precisando.
Já o senhor enfermo, pude perceber que o fato de ele ter alguém que o ajudasse com a sua dor, de qualquer forma que fosse, já seria alguma forma de tratamento. A atenção, qualificada ou não, ao seu sofrimento lhe traz sentimento de pertencimento à um grupo social que goza de seus direitos.
Em reflexão a esta situação, concluo que me pareceu senso comum que indivíduos em vulnerabilidade, em uso problemático de substância psicotrópicas, em situação de rua, deveriam ser abstraídos de seus direitos como cidadãos, incluindo ao que se refere a saúde. Entender que a atual situação de cada um e o seu poder de escolha está atrelado a fatores diversos que influenciam os grupos sociais a que estão inseridos, é de grande importância para esclarecer os caminhos que o levaram até ali e os próximos caminhos que serão trilhados.
O "nós" e o "eles" dentro do contexto de vida deste senhor, apresentaram-se julgadores de seus direitos e carrascos, sentenciando-o cada vez mais a sua marginalização.